A chegada dos gregos ao Brasil

Memória da presença helênica em Florianópolis e das origens de nossa comunidade

A presença grega em Florianópolis constitui uma das páginas mais belas e significativas da história de nossa cidade e, de modo particular, da formação da comunidade ortodoxa local. Ao recordar essa trajetória, rendemos homenagem à herança helênica conservada entre nós pela Associação Helênica de Santa Catarina e pela Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, herdeira viva dessa tradição.

Foi em 21 de setembro de 1883 que se deu um marco decisivo dessa história: o capitão Savas Nicolau Savas deixou alguns de seus tripulantes em Desterro, dando início ao estabelecimento de uma comunidade grega em terras brasileiras.

O intento inicial era seguir viagem com a embarcação Pomba Branca até Montevidéu. Entretanto, ao passar pela Ilha de Santa Catarina, na altura de Laguna, o navio teve seu mastro partido. Diante disso, o capitão Savás resolveu retornar a um porto seguro, a fim de procurar “uma madeira dura, reta e comprida o suficiente para fazer um novo mastro”. Ao chegar aqui, deparou-se com uma geografia que lhe pareceu familiar: o cais do porto, o mercado, a baía e a paisagem insular recordavam-lhe a topografia de Kastellorizo, sua terra natal.

Essa semelhança não foi um detalhe sem importância. Quem conhece Kastellorizo percebe como a paisagem de Desterro podia evocar, para os imigrantes gregos, algo do ambiente deixado para trás: o porto, as casas próximas ao mar, as elevações ao fundo, a proximidade do continente e o conjunto de pequenas ilhas ao redor. Tudo isso certamente favoreceu o nascimento de um vínculo afetivo com esta nova terra.

Mas havia também razões profundas para deixar a pátria de origem. Kastellorizo já não oferecia a segurança e as condições de vida de outrora. A população enfrentava instabilidade, dificuldades econômicas, retração do comércio e um futuro incerto. A ilha, que em outros tempos fora próspera, cosmopolita e intensamente ligada às rotas comerciais do Mediterrâneo, sofreu duramente os efeitos das guerras, dos bombardeios e das sucessivas crises políticas e econômicas. De uma cidade florescente e culta, veio a tornar-se, com o tempo, um lugar marcado pela redução populacional e pela precariedade.

Foi nesse contexto que as famílias gregas fundadoras encontraram, em Santa Catarina, um lugar de paz, trabalho e esperança. Vieram ainda no século XIX, antes mesmo da Proclamação da República, trazendo consigo experiência náutica, habilidade profissional, espírito empreendedor e o desejo de estabelecer aqui um novo e definitivo domicílio. Ao contrário de outros grupos migratórios que buscavam o interior, muitos desses gregos escolheram a capital, onde se fixaram de modo duradouro.

Quando retornou em 1889, o capitão Savás trouxe consigo seus pais, Nicolau Barba Hatzisavas e Eudocia, que voltaram em 1893, bem como seu cunhado Constantino Spyrides, casado com sua irmã Eudoquia, e os três filhos mais velhos do casal: Nicolau C. Spyrides, que permaneceu no Brasil, e Spyrus e Eudoquia, que regressaram a Kastellorizo em 1893.

Também vieram filhos de sua irmã Kyrana, casada com Theodocios Atherinou: André T. Atherinou, casado com Maria Diamantaras; Jorge T. Atherinou, casado com Maria Iconomos Palassis; e Syriaco T. Atherinou, casado com Zoe Komninou Hatzidoulou. Mais tarde, vieram ainda seus irmãos Estefano Savas, que deixou descendência em Laguna e Florianópolis, e Miguel Savas, ambos capitães de navio. Dos sete filhos homens de Kyrana, seis vieram estabelecer-se na nova terra. Das duas filhas, uma veio posteriormente, já casada com Kosmos Komninos.

Assim, entre 1889, já no período republicano, e 1937, antes do Estado Novo, chegaram a Florianópolis diversos grupos de famílias gregas, tendo como principal tronco kastellorizo o do capitão Savás. Esse núcleo estabeleceu-se quase integralmente na nova comunidade grega e, pela convivência e pelos matrimônios com outras famílias da cidade, deu origem a numerosos ramos familiares.

Entre as famílias de primeira geração, destacam-se: Savas, Kotzias, Atherino, Tafrá (Stavrianou) e Spyrides (Diamantaras).

Na segunda geração, aparecem: Kalafatás, Yaracu, Constantinopulos, Palassis e Kosmos Komninos.

Na terceira geração, encontram-se: Lacerda, Szpoganicz, Lucas, Apóstolo, Joanides, Pitsikas, Koutsoukos, Nicolau, Fermanis, Nicolacopulos, Mavros, Haviaras, Boabaid e Docolas.

Na quarta geração, surgem, entre outros, os sobrenomes: Neves, Zupan, Corfu, Dimatos, Aguiar, Piazza, Lisboa, Rosa e Westrupp.

Essa história não se limita à genealogia. Ela fala de uma contribuição efetiva e duradoura dos gregos e de seus descendentes à vida catarinense. No campo político, por exemplo, destacam-se nomes como o do governador Jorge Lacerda e de Antonio Boabaid, que assumiu o governo de Santa Catarina após o trágico acidente aéreo que vitimou Jorge Lacerda e outras lideranças políticas no Paraná. Também houve importante presença na vida pública municipal, como no caso de Spiros Dimatos e Antônio Paschoal Apóstolo, este último chegando a assumir a Prefeitura.

Além da atuação política, a colônia grega deixou marcas relevantes nas letras, no Direito e na Justiça, na Administração Pública, na Medicina e na Saúde, na Engenharia, no Comércio e na Indústria, tanto em Santa Catarina quanto em outras regiões do Brasil. Trata-se de uma presença discreta, mas fecunda; silenciosa, mas profundamente enraizada.

Ao recordar essa memória, nossa Paróquia reconhece com gratidão o testemunho daqueles que aqui chegaram vindos do outro lado do mar, trazendo consigo não apenas nomes e tradições familiares, mas também a fé, a perseverança, o amor ao trabalho e a esperança de construir uma nova vida sem romper com suas raízes.

Conservar essa história é um dever de gratidão. É também uma forma de honrar nossos antepassados e de transmitir às novas gerações a consciência de que a presença ortodoxa em Florianópolis não nasceu por acaso, mas foi edificada com sacrifício, coragem e fidelidade.

Yamas!
Saúde para todos.

Nota: Texto adaptado de palestra proferida por Maria Atherino Neves na reunião do Rotary Club de Florianópolis, em 20 de setembro de 2012.