As Relíquias de Santa Catarina de Alexandria

A presença das relíquias de Santa Catarina de Alexandria em nosso Estado constitui capítulo singular da memória religiosa e cultural catarinense. Sua trajetória documentada reúne devoção cristã, identidade histórica, cooperação institucional e frutuoso espírito de convivência eclesial

Este texto apresenta, de forma objetiva e baseada em documentos, os principais eventos conhecidos desde as primeiras iniciativas oficiais, no ano 2000, até os diálogos institucionais realizados em 2026.

1. O pedido oficial do Estado de Santa Catarina (13 de junho de 2000)

Durante a Visita Pastoral de Metropolita Gennadios ao Estado de Santa Catarina, o então Governador Esperidião Amin Helou Filho dirigiu ofício manifestando o desejo de obter para Santa Catarina uma relíquia de sua Padroeira.

No documento, o Chefe do Executivo recorda os vínculos históricos entre o Estado e Santa Catarina de Alexandria e solicita o apoio necessário para que fosse obtida «uma pequena parte das relíquias dos restos mortais de Santa Catarina», destinada à veneração em solo catarinense.

Trata-se do primeiro marco institucional conhecido de todo o processo que culminaria, posteriormente, na vinda da santa relíquia ao Estado.

No registro oficial, o Governador Esperidião Amin está ladeado pelo Arcebispo Gennadios (♰), Metropolita à época, e pelo Monsenhor Nectários Selalmazidis (hoje Arcebispo em Jerusalém). Compõem a ala esquerda Monsenhor Angelos Kontaxis (♰), Protopresbítero Basílio Santos Lima e o então Diácono Pedro Paulo. À direita, figuram o Dr. Paschoal Apóstolo Pítsica (♰), o Pe. Paulo Augusto (atual Dom Irineo) e o Pe. João Manoel Sperandio (atual Monsenhor André).

2. Apoio eclesiástico e tratativas junto ao Monastério Ortodoxo de Monte Sinai (setembro de 2000)

Em 8 de setembro de 2000, Monsenhor Nektários Selalmazidis, à época Vigário Geral no Brasil e atualmente Arcebispo da Igreja de Jerusalém, Exarca Patriarcal em Constantinopla, encaminhou correspondência ao Monastério de Santa Catarina do Sinai, recomendando a missão do Reverendo Padre Angelos Kontaxis.

A carta manifesta apoio às tratativas relacionadas ao pedido catarinense referente à relíquia da Santa Megalomártir Catarina.

3. Credenciamento oficial e missão ao Sinai (setembro–outubro de 2000)

Em carta datada de 25 de setembro de 2000, o Governador Esperidião Amin agradece providências adotadas visando ao translado para Florianópolis da relíquia de Santa Catarina, mencionando a generosa colaboração do Arcebispado do Monte Sinai.

Poucos dias depois, em 3 de outubro de 2000, novo ofício foi dirigido ao Arcebispo Damianos, do Monastério de Santa Catarina do Sinai, credenciando Monsenhor Angelos G. Kontaxis para receber oficialmente a santa relíquia em nome do Estado de Santa Catarina.

O documento registra que tal gesto seria motivo de grande honra para o povo catarinense.

4. A concessão oficial da relíquia (16 de outubro de 2000)

Em resposta datada de 16 de outubro de 2000, o Arcebispo Damianos comunica haver atendido ao pedido formulado em favor de Santa Catarina.

O Monastério do Sinai declara ter concedido um fragmento das relíquias de Santa Catarina de Alexandria:

  • para bênção espiritual da Igreja Ortodoxa local;
  • para benefício dos cristãos do Estado;
  • como gesto fraterno dirigido ao Brasil e à América do Sul.

Este documento constitui peça central da história das relíquias em Santa Catarina.

5. Agradecimento oficial do Governo catarinense (20 de novembro de 2000)

Em nova correspondência, o Governador Esperidião Amin agradece ao Arcebispo Damianos pela honrosa concessão da relíquia da «venerada Padroeira do nosso Estado».

A carta também agradece a acolhida dispensada ao representante catarinense durante a missão realizada no Sinai.

Sarcófago, no interior do Monastério Ortodoxo Santa Catarina de Alexandria, no Monte Sinai (Egito) onde repousam os seus restos mortais.

6. Certificado de Autenticidade (2001)

No início de 2001, foi emitido Certificado de Autenticidade pelo Monastério de Santa Catarina do Sinai.

O documento declara que, em outubro de 2000, pequena relíquia da Santa Grande Mártir Catarina foi entregue ao Reverendo Padre Angelos Kontaxis:

  • para veneração em igreja ortodoxa na cidade de Florianópolis;
  • em atenção ao pedido do Governador do Estado;
  • como bênção aos cristãos de Santa Catarina, do Brasil e da América do Sul.

Posteriormente, o certificado foi encaminhado à Presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

7. Desenvolvimento posterior e memória pública

Com o passar dos anos, a presença das relíquias passou a integrar a memória religiosa e institucional catarinense, sendo reconhecida por diferentes autoridades civis e eclesiásticas.

Em tempos mais recentes, sua presença passou a ser associada publicamente ao contexto devocional da Capela Ecumênica existente no âmbito do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

8. Um sinal de fraternidade cristã

Ao longo dos anos consolidou-se, em Florianópolis, gesto ecumênico digno de nota: por ocasião da festa de Santa Catarina, membros do clero ortodoxo conduzem as relíquias para celebrações no centro da cidade, com acolhida fraterna da Catedral Metropolitana de Florianópolis e procissão pública pelas ruas centrais.

Tal tradição manifesta:

  • respeito mútuo entre Igrejas;
  • veneração comum da Padroeira;
  • testemunho cristão público;
  • cooperação preservando as identidades próprias.

9. Reunião institucional de 16 de abril de 2026

Presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Desembargador Rubens Schulz, e do 3º Vice-Presidente, Desembargador Márcio Rocha Cardoso. Estão acompanhados, respectivamente, por Dom Irineo de Tropaion e Henrique Verçoza (Vice-Presidente da AHSC); e pelo Monsenhor André (Reitor da Paróquia São Nicolau) e Dr. Andréas Evangelos Karabalis (Presidente da AHSC).

Em 16 de abril de 2026, representantes da Igreja Ortodoxa Grega e da comunidade helênica catarinense foram recebidos pela Presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em encontro marcado por cordialidade e espírito construtivo.

Participaram do encontro:

Pelo Tribunal de Justiça:

  • Presidente Desembargador Rubens Schulz;
  • Desembargador Márcio Rocha Cardoso, Terceiro Vice-Presidente.

Pela comitiva eclesial e comunitária:

  • S.E.R. Dom Irineo de Tropaion;
  • Mons. André, Reitor da Paróquia São Nicolau;
  • Dr. Andréas Evangelos Karabalis;
  • Sr. Henrique Verçoza.

O encontro reafirmou a importância histórica, espiritual e cultural das relíquias para Santa Catarina.

10. Esclarecimento histórico oportuno

Ao longo dos séculos, diversas igrejas cristãs em diferentes países podem conservar pequenas relíquias atribuídas a Santa Catarina de Alexandria.

Todavia, a relíquia cuja trajetória se descreve neste histórico possui identidade própria e singular, por estar documentalmente vinculada:

  • ao pedido oficial do Governo do Estado de Santa Catarina;
  • à concessão formal do Monastério do Sinai;
  • à entrega ao representante eclesial ortodoxo em Florianópolis;
  • ao reconhecimento institucional catarinense.

Essa especificidade histórica merece ser conhecida e preservada.

Conclusão

As relíquias de Santa Catarina de Alexandria em nosso Estado representam precioso testemunho do vínculo entre fé, história e vida pública.

Sua memória documentada convida à gratidão para com todos os que contribuíram para essa história e estimula a continuidade de relações marcadas pela verdade, pelo respeito mútuo e pela caridade cristã.

Relíquia de Santa Catarina de Alexandria, conservada na Capela Ecumênica do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. O conjunto devocional é composto por preciosa partícula de uma das costelas da santa, ícone escrito pelos monges do Monastério, e pedra proveniente do santo Monte Sinai, lugar ligado à revelação concedida por Deus a Moisés. Provenientes do histórico Monastério de Santa Catarina, esses elementos foram concedidos, no ano 2000, à comunidade ortodoxa local para veneração pública em Santa Catarina, fortalecendo o vínculo espiritual entre o Estado catarinense e um dos mais antigos centros vivos da tradição cristã. Parte desse precioso conjunto encontra-se exposta para veneração na Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, enquanto a relíquia vinculada ao ícone permanece guardada na Capela Ecumênica, em frente ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

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