Em busca da Relíquia de Santa Catarina
Viagem inesquecível
Em 29 de 1999, no gabinete do Exmo. Governador Esperidião Amin, iniciaram-se os preparativos para uma viagem singular: minha ida ao Monte Sinai, no Egito, com a finalidade de trazer para Santa Catarina uma relíquia de sua padroeira, confiada à guarda da Igreja Ortodoxa local.
Parti em 12 de outubro rumo ao Cairo. De lá, em automóvel, atravessei o Nilo, o Canal de Suez e percorri cerca de 370 quilômetros pelo Deserto do Sinai.
Após breve parada em um oásis, cheguei aos pés da montanha onde se encontra o venerável Monastério de Santa Catarina de Alexandria, lugar em que repousam suas santas relíquias.
Na mesma montanha, a 2.637 metros acima do nível do mar, Moisés recebeu os Dez Mandamentos. São 612 degraus do Monastério até o cume, subida que fiz com profunda emoção.
De lá trouxe também algumas pedras, testemunhas silenciosas do elo entre o passado bíblico e o presente.
Na edição seguinte de nosso boletim, publicamos um relato mais amplo desta viagem emocionante e inesquecível, bem como dos acontecimentos que envolveram a vinda da santa relíquia para Florianópolis.
Kalimera de Outubro de 2000 (Ano 4, Nº 39)
Em busca da Relíquia de Santa Catarina
Naquela ocasião, em nome de nosso Arcebispo, foi apresentada pelo Monsenhor Angelos Kontaxis uma solicitação singular e profundamente significativa: que se estudasse a possibilidade de trazer para Santa Catarina uma relíquia de Santa Catarina de Alexandria, venerada no histórico Monastério do Monte Sinai, no Egito, onde se conservam suas santas relíquias.
Durante o cordial encontro, o Governador e seus assessores perguntaram se seria possível obter, por intermédio da Igreja, uma relíquia da santa padroeira dos catarinenses, de modo que pudesse vir ao Estado e permanecer sob guarda eclesiástica.
Dom Gennadios acolheu com entusiasmo a ideia, e o Governador igualmente manifestou grande alegria. Ficou então acertado que seriam encaminhadas cartas ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Sua Santidade Bartolomeu, bem como ao Arcebispo do Sinai, Dom Damianos, solicitando benevolência para que uma relíquia pudesse ser confiada à custódia da Igreja Ortodoxa em Florianópolis, em benefício espiritual do povo catarinense.
O Senhor Governador prontamente aceitou colaborar e pediu ao Monsenhor Angelos auxílio na preparação da correspondência oficial. Desde então, ele passou a acompanhar diretamente todo o processo documental.
No dia seguinte, entreguei ao Sr. Nelson Pedrini, braço direito do Governador, um modelo de carta a ser remetida ao nosso Arcebispo, para posterior envio ao Patriarcado.
Como se pode constatar, todo este processo entre o Governo de Santa Catarina e Monsenhor Angelos encontra-se documentado por cartas, registros e fotografias.
No dia 13 de junho, o Governador entregou-me a carta destinada ao Arcebispo Gennadios. Imediatamente providenciei sua tradução para o grego e encaminhei-a ao Arcebispo.
Desde o dia 16, quando as cartas foram remetidas, até meados de setembro não recebemos resposta. Por isso, enviei nova correspondência ao Senhor Governador, informando-lhe o andamento dos fatos.
Em resposta, o Governador remeteu-me outra carta, agradecendo as providências tomadas.
No dia 29 de setembro fui convocado ao Palácio pelo Cerimonial do Governo e conversei com os responsáveis pelas festividades do Estado. Preparavam as comemorações do dia de Santa Catarina, em 25 de novembro, e desejavam saber se haveria possibilidade de a relíquia já estar em Florianópolis nessa data.
No dia seguinte telefonei ao nosso Arcebispo Gennadios, em Buenos Aires, para saber se havia novidades. Ele informou que naquele mesmo dia falara com o Arcebispo do Sinai, Dom Damianos, o qual se mostrara favorável e solicitara que eu entrasse imediatamente em contato com ele, a fim de organizar minha ida ao Egito para receber a relíquia.
Telefonei então ao Monte Sinai e falei longamente com Dom Damianos por cerca de uma hora e quinze minutos. Após ouvir minhas explicações, pediu-me que viajasse ao Monastério para receber oficialmente a santa relíquia.
No dia 3 de outubro procurei o Senhor Governador e comuniquei-lhe os bons resultados obtidos. Fui acompanhado pelo Senhor Diamantaras, e fomos recebidos com grande entusiasmo.
Entreguei ao Governador carta contendo algumas condições práticas da viagem. O Senhor Governador, alegre com a notícia, ofereceu-me cem dólares como ajuda pessoal para o Monastério e determinou que seus auxiliares preparassem presentes para o Arcebispo.
Mandou também confeccionar uma placa em madeira, em nome do povo catarinense, destinada ao Monastério de Santa Catarina. Ao mesmo tempo, entregaram-me uma imagem de Cristo gravada em madeira, obra de artista gaúcho, uma bandeira de Santa Catarina e mapas do Brasil e do Estado, para que eu pudesse apresentar nossa terra aos Santos Padres do Sinai.
Na mesma data, a Assessoria de Relações Internacionais do Estado enviou fax à Embaixada do Brasil no Cairo, solicitando apoio em minha chegada ao Egito e no que mais fosse necessário.
No dia 10 fui ao Palácio e recebi a passagem para o Egito. Assim começou esta verdadeira odisseia. Todos desejaram-me boa viagem e êxito.
No dia 12 de outubro de 2000, acompanhado do Dr. Savvas A. Pitsica e do Sr. Siriaco Diamantaras, dirigi-me às 5h30 ao Aeroporto Internacional de Florianópolis, onde embarquei para São Paulo.
Em São Paulo fui saudado pelo Vigário Geral do Brasil, Monsenhor Nectários, e pelo Padre Basílio Lima, que me desejaram boa viagem.
Segui então para Frankfurt, na Alemanha, e dali para o Cairo, no Egito, numa jornada de quase dois dias.
No Cairo fui recebido por representantes da Embaixada do Brasil, portando carta pessoal de boas-vindas do Embaixador Celso Marcos de Souza.
Após breve descanso, seguimos às 16 horas, em veículo enviado pelo Arcebispo do Sinai, rumo ao Monte Sinai. Foram mais de seis horas e meia de viagem.
Atravessamos o Nilo, depois o Canal de Suez, e percorremos centenas de quilômetros pelo deserto. Estradas amplas, vastidão silenciosa e, ao longe, a paisagem austera do Sinai.
Chegamos ao Monastério após as 21h30. Tudo era silêncio profundo. A primeira impressão foi a da santidade do lugar, cercado por grandes montanhas e iluminado apenas pelas estrelas.
Fui conduzido à hospedaria dos visitantes, fora das muralhas do Monastério, pois seus portões já estavam fechados. Após ligeira refeição, recolhi-me exausto, sem dormir havia mais de quarenta e oito horas, porém profundamente feliz por haver chegado com a graça de Deus.
Na madrugada seguinte, às 4h30, despertaram-me para participar da Santa Liturgia, celebrada até as 8 horas.
Depois da celebração fui apresentado e calorosamente recebido por Dom Damianos e pelos padres do Monastério, cerca de vinte ao todo. A comunidade contava então com vinte e cinco padres, monges e noviços.
Após o café, fomos ao escritório do Arcebispo, onde apresentei minhas credenciais e entreguei os presentes enviados pelo Governador, bem como ofertas pessoais e contribuições das Senhoras do Lanche São Nicolau.
Seguiram-se dois importantes encontros com o Arcebispo e com a assembleia dos padres. Expliquei as razões espirituais e históricas do pedido, mostrei os mapas e ressaltei que Santa Catarina é o único Estado do mundo que traz o nome da santa.
Não foi simples convencê-los. Nunca antes uma autoridade civil havia intercedido para que uma relíquia fosse confiada, não ao poder público, mas à guarda e veneração da Igreja local, para benefício de um povo inteiro.
Desde o início, Dom Damianos mostrou-se favorável. Pouco a pouco, com paciência e diálogo, os Santos Padres consentiram que a santa relíquia fosse entregue à custódia da Igreja Ortodoxa e da Comunidade Helênica de Florianópolis, mediante responsabilidades claramente assumidas.
Fui então convidado a assinar documento pelo qual se previa, em tempo oportuno, a construção de uma capela dedicada a Santa Catarina, local digno para a veneração e guarda da relíquia.
Até lá, a santa relíquia permaneceria confiada à responsabilidade da Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau de Florianópolis e de sua comunidade.
Em nossa Igreja de São Nicolau, Dom Damianos entregou-me ainda uma carta manuscrita dirigida ao Senhor Governador, explicando as condições eclesiásticas da concessão da santa relíquia.
Na segunda-feira, dia 16, o Arcebispo e alguns padres conduziram-me ao topo da Montanha de Moisés, cerca de seiscentos degraus acima do Monastério, próximo do lugar onde a tradição situa o recebimento dos Dez Mandamentos.
Ali recebi do Arcebispo um grande fragmento de pedra, como testemunho vivo da ligação entre passado e presente.
À tarde visitamos dois monastérios femininos do Sinai e outros lugares sagrados.
No dia 17 iniciamos a viagem de retorno ao Cairo, atravessando novamente o deserto sob calor intenso.
Passamos por diversas barreiras do exército egípcio, em razão das tensões regionais então existentes.
No dia 18 fui recebido pelo Embaixador do Brasil no Cairo, a quem apresentei a santa relíquia.
Naquela tarde adquiri também uma caixa especial, digna e ornamentada, destinada a guardar a relíquia durante o retorno.
No dia 19 deixei o Cairo rumo ao Brasil. No dia seguinte cheguei a São Paulo, sendo novamente acolhido por Monsenhor Nectários.
Às 11h15 desembarquei em Florianópolis. Representantes do Governo e um pequeno grupo de fiéis aguardavam-me no aeroporto. Seguimos diretamente para a Igreja de São Nicolau, onde a santa relíquia foi apresentada com grande emoção.
No dia 27 fui recebido oficialmente pelo Governador em seu gabinete, onde me acolheu com cordialidade e alegria.
Apresentei-lhe a santa ícone recebida no Sinai e outros presentes, renovando o convite para visitar nossa Igreja e venerar a relíquia.
Na segunda-feira, dia 30, às 14h30, realizou-se singela cerimônia com a igreja repleta de fiéis, contando com a presença do Senhor Governador, de sua mãe e do Desembargador Dr. Francisco Xavier Medeiros Vieira, então Presidente do Tribunal de Justiça.
Mais uma vez agradeci ao Governador por haver apoiado tão elevada missão, e roguei que a Santa Megalomártir Catarina protegesse sua família e todo o povo catarinense.
Em breves palavras, o Senhor Governador agradeceu e anunciou que, em entendimento com o Tribunal de Justiça, seria providenciada uma capela no Palácio da Justiça, conforme o desejo manifestado pelos Santos Padres do Sinai, para acolher dignamente a relíquia.
Nas Divinas Liturgias dos domingos 22 e 29, as relíquias de Santa Catarina passaram em procissão e, após a celebração, foram apresentadas aos fiéis para veneração.
Galeria de fotos
Abaixo, publicamos algumas fotografias desta memorável viagem ao Egito, da visita ao Monastério de Santa Catarina no Sinai e dos momentos que marcaram a chegada da santa relíquia a Florianópolis.

























